Revista Metal: "Vocês estão preparando alguma surpresa para os fãs brasileiros?"
Abaddon: "Sim, nós tentaremos tocar todas as músicas direito!"

 


    Somos o arquivo ressuscitado, documento empoeirado, memorial horroroso de uma geração, contendo histórias e acervos sobre a improvável "Brazilian Assault – 1986", quando Venom e Exciter, duas das bandas preferidas do underground nacional, e dos “tape traders”, inacreditavelmente empreenderam uma excursão pelo Brasil, enfrentando inúmeros problemas estruturais.

    Utilizei o verbo "empreender", pois o mesmo é frequentemente usado ao se referir às expedições por terras desconhecidas, inexploradas, como foram as viagens de C. Colombo, P. Álvares Cabral, etc...

    Ingresse no museu esquecido do caos!

     (antigo  www.venombrasil.com.br)

Cronos e Jimi Clare no Maracanãzinho - 1986

 

    A década de 80 foi marcante! Foi uma época em que o sentimento e a garra sempre sobressaíam, em relação à técnica. Os álbuns eram gravados sob condições precárias, mas a criatividade das bandas daquela época era impressionante. E, sem dúvida nenhuma, poucas bandas simbolizaram tanto esse período quanto o Venom!
    Particularmente no Brasil, os anos 80 foram ainda mais especiais (arduamente especiais). Encontrar qualquer revista, cassete, vinil (ainda não existia CD...), era considerado um ato heróico. Nos programas de videoclipes na televisão (período Pré-Youtube), a banda mais pesada presente na programação era o Kiss. Não existia Metropolitan com tapetezinho vermelho. Os shows eram no Maracanãzinho mesmo, com som embolado e tudo mais, porém com o "clima" de Heavy Metal.
    Em 85 e 86, passada a euforia causada pelo primeiro Rock In Rio, as revistas brasileiras de Heavy Metal da época noticiavam que havia, em uma cidade minúscula da Inglaterra, chamada Newcastle, uma banda fazendo um som totalmente diferente do que já se tinha ouvido. Nunca uma banda havia soado tão pesada, rápida e agressiva. Nunca um grupo havia quebrado tantas barreiras. Nunca músicos (?) haviam adotado pseudônimos daquele gênero.
    Seu nome: Venom.
    Acompanhando as matérias, as fotos dos integrantes da banda eram as mais radicais e sombrias possíveis. Cronos, Mantas e Abaddon tomavam a cena, de assalto, como seres de outro mundo, indivíduos que deram um novo rumo ao Heavy Metal. Lendo as revistas, ficamos sabendo que a banda se auto-intitulava Black Metal, uma ramificação muito mais extrema do Heavy Metal, e que, a partir dela, se desdobrou em Death Metal e Thrash Metal, o que fez do Venom a banda mais influente da história do Heavy Metal, ao lado do Black Sabbath. Uma ave de rapina horrorosa, e, pior, prenha, passando pelos quatro subterrâneos do mundo, e desovando sua prole infernal (Hellhammer, Bathory, Sodom, Vulcano...).
    Na Rock Brigade de Setembro de 83, o repórter Berrah de Alencar, comentando o disco "Black Metal", escreveu versos que despertaram um interesse máximo sobre a banda, como "É horripilante! O Venom detona sem piedade. (...) Poucos têm condições psicológicas para ver, ouvir e engolir o que o Venom mostra no palco. O shock desta banda intensificou uma campanha maciça em todos os E.U.A., feita em outdoors de beira de estradas, contra o Heavy Metal, encetada pela Music to Moral Majority, instituição religiosa americana. No senado, apareceu um projeto de lei que obriga a colocar, nos discos de Heavy Metal, 'Isto contém alusões ao demônio'. Que tamanho cinismo!".
    Em 86, outra revista, a Heavy, colocou ainda mais lenha na fogueira de expectativa sobre o Venom: "Não há nada de macio no Venom. Tudo é violento e forte. Além de rápido (...). Ao vivo, nos discos ou nos vídeos, nada de romantismo, nada de harmonia. Tudo é arrasadoramente alto, cheio de distorções, som sujo, Thrash. São, em verdade, os papas do Black Metal".
    E nós, acostumados com Kiss, Whitesnake, Scorpions, Ozzy Osbourne, Iron Maiden, AC/DC, passamos a cultivar uma enorme expectativa em escutar o som do Venom. Seus discos eram vendidos cheios de advertências a respeito do teor lírico, o que só aumentava ainda mais o suspense.   

    Não somente os discos, mas também os vídeos importados, originais, e, especialmente, suas versões pirateadas, se converteram em pestilência, e o Venom era o maior difusor (e vítima) desta epidemia do underground brasileiro, especialmente com "Witching Hour". "Witching Hour" tem o melhor "promo video" da história da música. Naquele estilo "fake alive", este videoclipe reúne todos os mandamentos, visuais, musicais e cênicos, para uma verdadeira banda de Metal. É quase didático! Nada, até hoje, foi filmado de modo a superar este vídeo (pode incluir aí todos os filmes da história do cinema, todos os jogos de Copa do Mundo, a chegada do Homem à Lua, todos os episódios de Chaves, etc...).

    Em meados de 86, o que parecia impossível, aconteceu: é anunciada uma excursão do Venom ao Brasil! Logo o Venom, uma banda que faz poucos shows, e ainda mais no Brasil, um país que, até então, estava vivendo das lembranças do Kiss, em 83, e do primeiro Rock In Rio.

 

    No começo, ninguém acreditou. Com o tempo, os primeiros cartazes foram sendo espalhados pelas lojas brasileiras, como as cariocas Sub-Som e Toca do Vinil. Foi noticiado que o Exciter também viria, e que bandas brasileiras abririam os shows, inclusive uma "tal" de Sepultura. Os mais pessimistas, que achavam que aquilo tudo não passava de um sonho, ou um pesadelo, só vieram a acreditar mesmo quando a TV Bandeirantes  passou a exibir uma chamada para o show, em pleno horário nobre, com o Venom tocando ao vivo (aquele vídeo, no programa inglês ECT).

    Não havia mais dúvida! A banda mais pesada do mundo estaria mesmo no Brasil!

    No colégio, meus amigos espalhavam boatos sem nenhum fundamento, como "no último show deles, na Argentina, morreram 400 pessoas" (O Venom nunca havia tocado lá), e "eu li uma entrevista onde a banda disse que, no fim dos shows, aqui no Brasil, iria fechar os portões dos estádios, e colocar fogo dentro", entre tantos outros.

    NOTA: Curiosamente, o Maracanãzinho havia passado por um incêndio, em 1970 (foto no link Rio de Janeiro).

    Após a passagem do Venom e do Exciter, tudo mudou no Brasil. As bandas Heavy passaram a nos visitar com mais frequência, surgiram mais lojas especializadas em Metal, tornando muito mais fácil encontrar álbuns de bandas até então underground, como Destruction, Celtic Frost e Kreator. Mas os fãs daquela época jamais se esquecerão de como as dificuldades e a escassez de shows tornaram os anos 80 especiais, e fez, da vinda do Venom, um marco na história do Heavy Metal no país.

    Vale lembrar ainda que este foi o primeiro show de toda aquela geração que passou a gostar de Metal com o Rock in Rio I.
    A maior parte das matérias pertence ao acervo pessoal do nosso museu. Este material foi escaneado diretamente das revistas, em vez de ser redigitado. Assim, o leitor deverá clicar sobre a imagem, buscando o comando do zoom, de acordo com a leitura. Meu objetivo com isso foi manter ao máximo a sensação de estar abrindo uma revista do começo dos anos 80, e preservar a relação texto/foto de cada reportagem.

    Algumas páginas foram prejudicadas (ou aprimoradas?) pela ação de cupins e traças, como você poderá perceber. Em outras, a qualidade não está "aquela" maravilha, mas o sentimento está lá, intacto, e para o verdadeiro seguidor DIE HARD do Venom, é o que importa!

     Esta loja era o passaporte para um mundo musical obscuro, conhecido somente através de revistas. Na parede, havia três pôsteres: um com os caras do Destruction, em uma caverna, com diversas tochas; outro, com a contracapa do disco Possessed, do Venom; além do cartaz oficial da "Brazilian Assault - 1986".