Apokalyptic Raids - 2017

 

Um bate papo informal acabou gerando essa entrevista, com a lendária banda do underground do Rio!

 

 

SITE BRAZILIAN ASSAULT - 86: Fala Leon, é um prazer recebê-lo no nosso museu, agora com algumas novidades, com novas galerias, etc...
A. RAIDS: Obrigado pelo espaço! Isso tudo faz parte da minha história no Metal...
 
 
SITE BRAZILIAN ASSAULT - 86: Começo com uma pergunta de livre interpretação: Onde está o Apokalyptic Raids? (pode entender como quiser: localização de estilo, fase da trajetória, etc...)
A. RAIDS: Estamos em uma espécie de “reboot”! O Pedro Skullkrusher voltou à bateria, e trabalhamos intensamente em composição. Temos um bocado de músicas novas prontas, selecionando material, e esse material foi feito em clima de “volta às origens”. Estamos preparando um disco mais cru, mais básico, mas com as mesmas características de sempre. Estamos também lançando um par de discos ao vivo, então faremos 20 anos de carreira em grande estilo. Onde estamos em estilo? Ah você sabe, quem precisa de explicação não devia estar lendo isso hehehehe...
 
 
SITE BRAZILIAN ASSAULT - 86: É muito interessante a idéia do A.R. de colocar, no encarte dos discos, o ano em que as músicas foram escritas. Há composições dos anos 80, quando não havia nem 10 discos nessa linha. O EP do Hellhammer, o EP do Sodom, os primeiros do Venom, alguma coisa do Bathory, talvez o Vulcano...
A. RAIDS: Sim, você notou. São de bandas que eu tive na época. Ainda tem mais uma ou duas pra exumar hahaha Mas meu processo de composição as vezes é instantâneo, às vezes leva anos. Estas músicas novas que estamos preparando contêm riffs com 15 anos, e estavam esperando letra e arranjo, ou mudaram, ou se agruparam com outros riffs posteriores, ou riffs que acabei de fazer... Tenho várias idéias anotadas, às vezes alguma passa a frente na fila, às vezes alguma antiga toma forma.
 

SITE BRAZILIAN ASSAULT - 86: Na minha visão, o Apokalyptic Raids é uma das únicas bandas cujos lançamentos seguem uma progressão de qualidade. O segundo superou o primeiro, o terceiro superou o segundo, e o Vol. 4 eu considero o melhor de todos. Você também pensa deste jeito?
A. RAIDS: Acho que prefiro o terceiro. Mas o quarto não é nada mal hehehe No nosso som a pegada do baterista é fundamental pra dar a característica certa. Acho que no terceiro alcançamos a melhor química. Vamos ver, estamos tentando fazer o de sempre, melhor.
 
 
SITE BRAZILIAN ASSAULT - 86: Nosso site-museu teve a honra de organizar o show de lançamento deste disco, o Vol. 4, no Rio, em 2010. Você se lembra daquele evento?
A. RAIDS: Sim! Estávamos chegando da turnê, um mês de Brasil e um mês de América do Sul, e fechar no Rio foi ótimo pra coroar aquele ano, com todas as aventuras da turnê no bolso...
 
 
SITE BRAZILIAN ASSAULT - 86: Meu objetivo era fazer daquele evento um tributo à “Brazilian Assault´ 86”, e a minha idéia era relembrar a turnê em tudo, com cheques sem fundo para pagar a casa de show, banda principal com mudança de formação na última hora, equipamento “pulverizado”, show quase cancelado, produtor abandonando o país, mas resolvi deixar esses planos para um futuro evento, rsrsrs!
A. RAIDS: Opa, beleza! Também iremos fazer alguma surpresa! Quem sabe a gente ensaia as músicas dessa vez!!!
 
 
SITE BRAZILIAN ASSAULT - 86: Ahahaha! Neste álbum, Vol. 4, as influências do Black Sabbath ficaram ainda mais evidentes, como na "Remember the Future". As faixas que já começaram a aparecer, nos shows de vocês, do aguardado quinto disco, parecem manter esta linha bem Sabbath, com destaque para a "The Story of Pope Joan". O A.R. estaria se transformando em um Sabbath "Hellhammerizado"?
A. RAIDS: Mas o Hellhammer já é bem Sabbath, não concorda? Não é nada fácil compor na linha dos riffs do Tony Iommi... Todas as bandas da NWOBHM tentam, mas raramente conseguem. Inclusive Venom e Hellhammer. Se você diz que alcançamos desta vez, fico muito feliz. Há coisas que demoram décadas pra serem entendidas, amadurecidas. No disco novo tem alguma coisa lenta, alguma coisa épica, mas no geral são apenas músicas rápidas, diretas e retas.
 
 
SITE BRAZILIAN ASSAULT - 86: Outra preferida minha, ainda no quarto disco, é “The Unquiet Grave”, que parece ser Venom puro. O que você tem a dizer sobre esse som?
A. RAIDS: Sim, é isso. Venom é foda hahahahaha Temos uma versão estendida dela, a ser finalizada com solos de piano e sax. Não estou brincando!
 
 
SITE BRAZILIAN ASSAULT - 86: O Apokalyptic Raids segue algumas características de bandas marcantes e definitivas. Nessa linha de raciocínio, o quinto disco será ruim, seguindo as bandas clássicas (rsrs)?
A. RAIDS: Espero que não! Para isso rebootamos, pra evitar o desgaste. Bom, acredito que as épocas são diferentes. Nos anos 70, as bandas demoravam 3 ou 4 discos pra fazer o definitivo. Nos anos 80, tivemos a era dos 1os discos perfeitos... Hoje, acho que não temos mais ambições mercadológicas, o que nos distancia um tanto disso tudo. Espero que soemos “novos”.
 
 
SITE BRAZILIAN ASSAULT - 86: Após ter cruzado a América do Sul e alguns países da Europa, você pensa que as dificuldades e características locais podem ter alguma influência sobre cada cena, ou Headbanger é Headbanger em qualquer lugar?
A. RAIDS: Com certeza as dificuldades locais tem influência, e também Headbanger é Headbanger em qualquer lugar. Os problemas locais sempre irão influenciar a maneira como as pessoas tocam ou organizam eventos. Mas na essência são sempre iguais. Viajamos e encontramos outras pessoas que viajaram ou até imigraram. O Metal acaba funcionando como um “porto seguro” pra essas pessoas. Se você cair no meio de Tóquio, descubra onde os Bangers param e você fará amigos.
 
 
SITE BRAZILIAN ASSAULT - 86: A comunidade no Orkut do Apokalyptic Raids extrapolava a própria banda, com tópicos saudosos, como “Análise de Discos Injustiçados”, “Análise da História do Underground”, e muitos outros. Lá, se reuniam pessoas de alto nível de conhecimento, com opiniões importantes. O mais curioso é pensar que todo esse papo, embora interrompido, ainda permanece “vivo”, nos atalhos subterrâneos da internet, que te lançam de volta ao Orkut. Tem um livro valioso, lá embaixo de tudo! Onde se ganha e onde se perde, com a chegada da internet, nesse universo bandas- fãs?
A. RAIDS: A Internet facilita muitas coisas, mas ela é até certo ponto neutra, não tem conteúdo próprio. O conteúdo é aquele que a gente empresta à rede social. Assim, fico muito feliz de ter ajudado a moderar e atrair pessoas com um papo bom. Não estamos interessados em publico descartável, não estamos interessados em comercialismo barato. Estamos interessados em estabelecer relações de longo prazo com o público, assim como temos relações de longo prazo com a música. Então isso é até natural e esperado. Claro que com a correria moderna a gente não tem o tempo que gostaria pra encontrar com cada um e trocar uma idéia, mas vamos fazendo shows e encontrando pessoas... É sair do virtual e ir para o real.
 
 
SITE BRAZILIAN ASSAULT - 86: Como se deu o convite para você entrar no Metalmorphose? Você já chegou a pensar em incluir “Complexo Urbano” nos shows do A.R.?
A. RAIDS: Eles tavam precisando de um guitarrista (que eu não sou hahahaha) e acabei dando uma força. Eu gosto do Ultimatum, do Maldição, e foi uma experiência interessante aprender a tocar aquelas músicas que iam do Heavy ao Power ao Hard. Digamos que foi um “estudo” interessante pra mim pessoalmente. Mas deu o que tinha que dar, minha praia é aqui no Apokalyptic Raids. Quanto a Complexo Urbano, pela porrada, acontecia de às vezes eles brincarem com ela nos ensaios, e eu fazia uns vocais... Mas não, já temos músicas demais do A.R. pra tocar, chegam a umas 60, e a lista só faz crescer!

 
SITE BRAZILIAN ASSAULT - 86: A União Headbanger, coletivo criado com o objetivo de fortalecer a cena, promovendo encontros e shows, já acumula na bagagem diversos eventos bem-sucedidos. O caminho para o underground é este mesmo? Quais os futuros planos?
A. RAIDS: Com o tempo, vamos agregando pessoas que pensam parecido, que investem nessa teia de relações e fazem eventos e movimentam a cena. É natural querermos somar esforços. E aí vem um intercâmbio com outros estados e países. Os planos futuros são de continuar fazendo o de sempre. A UH, como escrevemos lá no zine, é só um nome para formalizar algo que sempre fizemos desde em outras décadas. Agora partimos para o mundo do podcast.
 
 
SITE BRAZILIAN ASSAULT - 86: O mais interessante é que cada um pode participar do seu jeito, na área do seu conhecimento, ou do seu interesse, sem hierarquias...
A. RAIDS: Exato. São bandas e fãs do som dessas bandas no fundo. Só isso, e essa é a força. As pessoas complicam muito em nome de um profissionalismo duvidoso. A tão falada “cena” é apenas a soma dos fãs e das bandas que amam. Então quando “voltamos às raízes”, é lembrar que somos fãs, amigos, acima de tudo. Hoje temos uma inversão horrenda na imprensa, a imprensa impõe bandas que tem qualidade no mínimo discutível... Banda boa é aquela que você indica pra seus amigos. Quando você se reúne, abre uma cerveja, e fala: cara, já ouviu isso? Ouça, é  foda. E aí seu amigo responde com outra. E por aí vai. Nosso podcast que eu falei acima é apenas isso. E essa é a graça. Catem aí na Internet, podcast União Headbanger.
 
 
SITE BRAZILIAN ASSAULT - 86: Você se lembra quando e como foi a primeira vez que leu, ouviu ou viu alguma coisa do Venom? Você acompanhou, “ao vivo” os lançamentos dos quatro primeiros discos, ou, como eu, quando conheceu a banda eles já estavam no Possessed?

A. RAIDS: Lembro que em meados de 1985 tocou no Guitarras da Fluminense algumas músicas do Black Metal e At War With Satan, eu acho... Acho que rolou Black Metal, Sacrifice (até hoje a música que eu mais curto do disco, a mais desgraçada), e algo como Women Leather and Hell, Dead of the Nite... Acho que foi isso. Acabaram ali: meus discos do Kiss, Maiden, Accept, os Purple e os Sabbath que eu tinha roubado do meu irmão, o Rock in Rio meses antes... Tudo ficou sem graça comparado com aquele absurdo sonoro que eu ouvi. Logo achei alguém no colégio que tinha o At War With Satan e eu arrumei a gravação. Ouvi até partir a fita... Logo arrumei os discos, eu havia sido infectado pela Venomania... Acho que devia estar saindo o Possessed, mas demorava um tempo pras coisas chegarem aqui. Tive o Possessed em versão picture, ouvi até furar também.


 

SITE BRAZILIAN ASSAULT - 86: Nos anos 80, tudo era mais suado e dramático. As bandas extremas, como Venom, Hellhammer, Destruction, reinavam, entre o pessoal do underground, entre os “tape traders”. Não havia essa tsunami de informações, ficávamos na dependência da chegada às bancas da Metal, da Brigade, etc. Você se lembra exatamente como ficou sabendo que o Venom viria ao Brasil, em 86, e as reações das pessoas?
A. RAIDS: Ah, a “internet” tinha dia e hora. Era o programa Guitarras da Radio Fluminense. O que não chegava nas lojas especializadas, o que era noticia, aparecia sempre no Radio. Era o canal mais ágil. Inclusive eles sorteavam ingressos pra quem ligava pra lá, e eu gastei o telefone de tanto ligar, telefone de disco, ganhei 2 ingressos de arquibancada, fui retirar na bilheteria e troquei por 1 de pista hehehe Lá estava eu no show do Venom de graça.
 
 
SITE BRAZILIAN ASSAULT - 86: Como você via a cena, no Rio, naquela época? Eu lembro que, além das divergências Metal Extremo x Hard Rock, Metal x Punks, havia também a turma mais antiga, que curtia Led Zeppelin, Deep Purple, que era completamente opositora ao Venom, Celtic Frost, Sodom, achando que era só barulho, que os caras inventavam as músicas na hora do show (rsrs), que o show era o próprio ensaio, etc. Mesmo nas revistas havia essa galera mais da antiga, que jamais entendeu as bandas extremas. Você concorda com isso?
A. RAIDS: Sim, quem foi criado com Purple não aceitava o Venom e os sucessores. Principalmente nas revistas. Lembro da Rock Brigade dando nota 1 pras bandas. Depois que o Metallica ficou grande, aí vieram. Mas eu estava lá, eu entrei no bonde da história e a mídia aqui perdeu esse bonde. A mídia brasileira, em geral ou especializada, é infectada de psicopatas, puxa sacos, e idiotas úteis... Então se formou uma geração aí que ouve Krisiun mas não ouviu Possessed. Não tenho como respeitar hehehehe...
 
 
SITE BRAZILIAN ASSAULT - 86: Não discuto a qualidade daqueles shows do Venom, em 86, até devido aos inúmeros problemas enfrentados. Mesmo entre as revistas há uma divergência de opiniões, como pode ser conferido no nosso site. Mas, falando de expectativa e surpresa, acho que nada, até hoje, superou a "Brazilian Assault' 86", concorda?
A. RAIDS: Sendo ainda mais extremo, o quesito expectativa x realidade atinge seu ponto máximo no Bathory, que nunca fez shows, e no Celtic Frost, que fez bons discos há 30 anos e desde então só decepciona. Então já sou escolado, minhas expectativas foram meticulosamente detonadas ao longo das décadas. Acho alguns dos meus músicos favoritos pessoas lamentáveis. Não tenho vontade de seguir esta ou aquela pessoa. Em muitos casos a obra é muito, mas muito, maior que a pessoa. Quanto ao show de 1986, é aquilo, acústica ruim, falta de experiência de shows desse tipo no país, e de fato pouco me lembro depois de 31 anos. O auge do Venom foi na tour 7 Dates of Hell. Naquele momento pré-Calm Before the Storm, começava o declínio, mas tudo era válido. Principalmente o Exciter...
 
 
SITE BRAZILIAN ASSAULT - 86: Eu me lembro que, deixando de lado essa expectativa, algumas pessoas até acharam o show do Venom em SP, em 2009, superior ao de 86. Qual a sua opinião sobre isso?
A. RAIDS: Olha, formação incompleta por formação incompleta, sim, acho que 2009 foi superior. Pois o repertório foi bem escolhido e executado. Claro que não posso deixar de mencionar o Venom Inc. Somando os 3 shows, podemos dizer que vimos o Venom clássico em suaves prestações...
 
 
SITE BRAZILIAN ASSAULT - 86: Aquela turnê do Venom e do Exciter acabou abrindo as portas do Brasil para mais shows neste estilo. Você foi, em 88, aos shows do Nasty Savage e do Exumer, e, em 89, naquilo que considero a “turnê de despedida” do Metallica , e  no “festival de multiatividades - luta livre na pista e banda no palco”, com o Motorhead? Algo pra relatar sobre esses saudosos eventos?
A. RAIDS: Foram grandes shows realmente. Impressionante como o Metal era mesmo um fenômeno de massa naquele tempo, com bandas independentes dando alguns milhares de pessoas em show no Rio. O que tivemos depois disso foram altos e baixos da cena, com os problemas que isso implicou, como esses que eu já citei de mídia, modismos, MTV, etc etc... Creio que agora o Metal esteja atingindo a maturidade em nível mundial. Quem viver verá.
 
 
SITE BRAZILIAN ASSAULT - 86: O que você acha dos discos “Welcome to Hell” e “Possessed”? O primeiro, considero a melhor expressão de arte de todos os tempos (incluindo teatro, cinema, escultura, literatura, música, dança, etc), e o Possessed, disco pouco ensaiado e pouco lapidado, tem, em minha opinião, um som obscuro e sujo como poucos.
A. RAIDS: Essa relação que você tem com o Welcome to Hell eu tenho com o Hellhammer hehehehe Eu não acho o Welcome to Hell o melhor, acho que foi crescendo e atingindo o auge no At War With Satan. Quanto ao Possessed, acho que ele tem algumas ótimas composições. O problema dele é a produção que exagerou no som do baixo, e acho a voz um tanto cansada em relação aos anteriores.
 
 
SITE BRAZILIAN ASSAULT - 86: Eu queria saber a sua opinião sobre algumas bandas que, teoricamente, fogem um pouco do universo do Metal mais extremo: W.A.S.P. e Rush. O "The Last Command" e o "2112" tocam sem parar no meu som...
A. RAIDS: Gosto do W.A.S.P. do 1º e do Headless Children. O Last Command acho meio arrastado demais. Talvez eu devesse escutá-lo novamente. Quanto ao Rush, não faz a minha cabeça. É muita informação. Gosto de algumas músicas soltas, mas ouvir um disco inteiro do Rush para mim é uma dor de cabeça. Ouvi uma vez o Moving Pictures e entendi que não queria escutar aquilo novamente...

 
SITE BRAZILIAN ASSAULT - 86: Deixe 3 músicas para ecoar agora, aqui no museu: 1 do Apokalyptic Raids, 1 do Venom, e 1 de livre escolha.
A. RAIDS: Trilogia da agonia: Warhead - Triumph of Death - Mankind Defeated!
 
 
SITE BRAZILIAN ASSAULT - 86: Valeu mesmo, Leon. Siga em frente perpetuando esse tipo de som, “renegado” tão precocemente. Suas palavras finais:
A. RAIDS: Obrigado pelo espaço! Vem aí nossos novos lançamentos, disco ao vivo e disco novo! Vamos encurtar o espaço entre lançamentos, fiquem ligados!